segunda-feira, 8 de abril de 2013
sexta-feira, 17 de junho de 2011
O DESAFIO DAS PRIMEIRAS MÉDICAS BRASILEIRAS



Ana Paula Pires TrindadeAo longo do tempo algumas mulheres ignoraram o dinamismo patriarcal dominador e mergulharam, sem medo, no dinamismo matriarcal. Uma delas foi a polonesa Marie Curie que, juntamente com Pierre Curie e Henry Becquerel, abriram o caminho para o entendimento da radioatividade. Estabeleceram uma nova técnica para o estudo das substâncias radioativas. Em 1898, descobriram o elemento polônio e foram laureados com o Prêmio Nobel de Física.[1] Quando do falecimento do seu esposo, Pierre Curie, tornou-se a primeira mulher a ocupar uma cátedra na Universidade de Paris que antes era ocupada por ele. Em 1911, Marie Curie foi novamente laureada com o Prêmio Nobel, desta vez de Química, pela descoberta do elemento químico rádio. Durante a Primeira Guerra Mundial orientou a construção de veículos dotados de aparelhos de raios-X que eram utilizados para a detecção de fraturas dos soldados no campo de batalha. Ela era uma das pessoas que dirigia os veículos, carinhosamente chamados de os pequenos Curies. Faleceu, vítima de leucemia, em 1934.
Ao comentar o preconceito machista do seu pai, Lygia Fagundes Telles cita a famosa frase irônica de Freud: Mas afinal o que querem as mulheres? Diz então: da minha parte eu quero apenas entrar para a Faculdade de Direito do largo do São Francisco, respondi ao meu pai. Lembrei ainda que poderia trabalhar para pagar esses estudos.
Em 1837, foi criado no Rio de Janeiro, o Colégio D. Pedro II, uma escola oficial que deveria atender a uma nova proposta: era exclusivo para rapazes e considerado padrão
Durante séculos a mulher lutou, com muita fibra, para alcançar o direito natural de exercer a profissão médica, contra todas as hostilidades machistas de sempre. Um édito de 1311 concedia o direito de as mulheres praticarem a cirurgia em Paris. No entanto, havia uma clara distinção entre o cirurgião, considerado de uma categoria inferior, e a o médico, que praticava a chamada medicina interna. Não tardou, porém, que esse direito fosse cassado. Em 1322, Jacoba Felicie foi presa e processada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Paris acusada de exercer a Medicina, embora fosse registrado que ela conhecia a arte da Cirurgia e da Medicina melhor do que qualquer doutor em Paris.
Existem evidências que a jovem alemã Dorothea Christiane Erxleben (1715-1762) foi a primeira mulher a receber o grau de doutora em Medicina. Estudou na Universidade de Halle e foi diplomada em 1754. Em 1812, James Miranda Stuart Berry (1790-1865) conseguiu o grau de doutor em Medicina pela University of Edinburgh, na Escócia, ingressando nos serviços médicos da Marinha Britânica, servindo na Índia, na Jamaica, Canadá e em outras colônias britânicas, como cirurgião-médico. Somente em 1865, quando faleceu, descobriu-se que era uma mulher.
Elizabeth Blackwell (1821-1910), nascida em Bristol, Inglaterra, tinha firme intenção de tornar-se médica. Aos 20 anos, residindo nos Estados Unidos, ao tentar matricular-se em um curso médico, teve o seu pedido negado por 11 escolas. Pleiteou a sua matrícula no Geneva Medical College [2] de New York e depois de muitas restrições machistas, foi aceita em 1847. Sua irmã Emily foi admitida no Rusch Medical College de Chicago. Em 1849 tornou-se a primeira mulher diplomada em Medicina na América. Após a formatura viajou par a Europa para estagiar nos Hospitais de Paris e de Londres e foi mal recebida. Foi-lhe permitido frequentar, em Paris, o La Maternité Hospital. Retornou aos Estados Unidos, juntamente com sua irmã Emily e a médica alemã Marie Zakrzewska e fundaram o New York Infirmary for Women and Children. Este hospital abriu as portas para todas as médicas que desejassem frequentá-lo. Mais tarde, ela ajudou a fundar a National Health Asociation, foi a primeira mulher admitida no British Medical Register e lecionou na primeira faculdade inglesa de medicina para mulheres, a London School of Medicine for Women.
Como vimos, no século XIX, as estudantes de Medicina eram mal recebidas por seus colegas nas universidades americanas e europeias. No final do século XIX, esse pensamento canhestro ainda era comum no Brasil e a própria legislação proibia o acesso das mulheres aos cursos superiores. A carioca Maria Augusta Generoso Estrella, nascida em 10 de abril de 1861, filha de Maria Luiza e Albino Augusto Generoso Estrella, foi a primeira mulher brasileira e sul-americana a se formar em Medicina. Teve educação exemplar no internato do Colégio Brasileiro, dirigido por Madame Gross, onde aprendeu piano, canto, Português, Francês, Inglês e prendas domésticas. Com apenas 12 anos, em 1873, interrompeu o aprendizado e viajou à Europa com o pai, visitando alguns países. De volta a Portugal, desembarcou em Funchal, na Ilha da Madeira e durante seis meses estudou no colégio Villa Real. Retornou ao Brasil e voltou a estudar no Colégio Brasileiro. A sua personalidade marcante é registrada por Silva[3] que transcreve uma matéria do Diário Carioca, de 23 de abril de 1950, que resgatava um pouco da história brilhante de Maria Augusta. Cita um fato interessante da viagem de retorno de Funchal para o Rio de Janeiro:
Salvou, certa vez por força de decisão pessoal, passageiros, tripulação e bagagem do vapor inglês Flamsteed, em que viajava de Funchal para o Brasil. Foi assim: no terceiro dia de travessia avista-se o couraçado inglês Blorimphon que, em pleno oceano pede ao Flamsteed, por meio de sinais, os últimos jornais europeus. Entendeu, todavia, o Comandante Brown do Flamsteed de dar uma prova de cortesia, abordando o Blorimphon, para entregar pessoalmente os jornais pedidos. Custou-lhe caro, porém, semelhante afoiteza porque o Flamsteed se atirou violentamente contra a proa do Blorimphon, destruindo alguns dos seus camarotes, fazendo grande rombo no próprio casco. Envergonhado pelo insucesso de sua gentileza o comandante Brown imprime ao seu navio toda a força das máquinas, afastando-se, assim, do encouraçado inglês. Passageiros e tripulação assistem, agora, apavorados, ao navio fazer água, enquanto Brown se recusa obstinadamente a pedir socorro. Confusão! Nesse momento, daquela gente desorientada, vai ao Comandante Brown, e, resoluta, suplica-lhe que peça socorro ao Blorimphon. Vencido pelo apelo daquela menina, Brown manda parar as máquinas, solicita auxilio ao Blorimphon que se aproxima, fazendo-se de logo o transbordo de todos os passageiros, tripulação e bagagem. Momentos depois submergia o Flamsteed. A heroína desta tragédia, Maria Augusta, menina de 12 anos, é saudada por todos a bordo do Blorimphon, comovidos e admirados da sua façanha. Maria Augusta saltou no Rio de Janeiro debaixo de aclamações populares, recebendo as honras de uma autentica heroína. Trajava-se, então, de marinheiro, amostrando no chapéu a fita que lhe presenteara o comandante do Blorimphon e trazendo ainda consigo, presente da tripulação do Blorimphon um talim de ouro da espada do mais jovem oficial de bordo.
Maria Augusta era leitora assídua dos periódicos brasileiros e norte-americanos. Chamou-lhe a atenção, em um desses periódicos, um artigo sobre uma jovem que estudava Medicina em New York. Ficou fascinada com a notícia e, mostrou-a ao pai, que sabia da impossibilidade do estudo no Brasil, pois as faculdades não permitiam o ingresso de mulheres. Mas ela insistiu para que ele fizesse um esforço para que ela pudesse formar-se nos exterior. Um Decreto de três de outubro de 1832 possibilitava esses estudos no exterior. Convenceu o pai que a apoiou nesse empreendimento.
Em 26 de março de 1875, partiu do porto do Rio de Janeiro, com a Senhora Guimarães, uma amiga da família no navio South América para New York, desembarcando em 23 de abril, sendo recebida festivamente pela imprensa norte-americana.[4] Após a legalização dos seus documentos, matriculou-se na Saint-Louis Academy de Oswego, Estado de New York. Um pouco decepcionada com o curso, dois anos depois, solicitou transferência para o New York Medical College and Hospital for Women.[5] O Diário Carioca, de 23 de abril de 1950, relata os problemas encontrados por ela na transferência:
Não foi fácil esta transferência da Saint-Louis Academy para o New York Medical College, onde não era permitida a matrícula a alunos menores de 18 anos. Mas nessa ocasião a jovem destemida encontra recursos para emocionar com seus argumentos a Diretoria do New York Medical College, forçando-a assim a matriculá-la. Convocada uma reunião especial da Congregação para o dia 12 de outubro de 1877 a fim de resolver o assunto, já às 7,30 da manhã, perante a Congregação, Maria Augusta,16 anos mal cumpridos, sobe a tribuna para, ela mesma, defender a sua causa. Admiração! E exclama: cometi, Senhores o delito de ser honesta declarando a minha idade verdadeira. Perdoem-me por isso. Venho de um pais longínquo onde o preconceito me fecha as portas da Academia. Confio que provando conhecimentos suficientes seja admitida neste Colégio como estrangeira, em caráter excepcional. Considerem, ainda, Senhores Professores a projeção que esta deferência terá nas relações dos Estados Unidos com o Brasil. Avaliem o belo exemplo que representará a minha matrícula para o sistema escolar de toda Republica dos Estados Unidos da América. Ao terminar este discurso Maria Augusta desce da tribuna sob aplausos gerais, inclusive dos próprios professores do New York Medical College. Momentos depois a Congregação do aludido Colégio decidiu por unanimidade atender à pretensão da jovem brasileira, permitindo a sua inscrição no exame vestibular. Triunfo!
Os exames foram marcados para 16 de outubro. Respondeu com eloquência às perguntas, e com a inteligência, a perspicácia e o preparo demonstrados nas disciplinas, não deixou dúvida aos examinadores. Foi aprovada com distinção e matriculada no dia seguinte.
Sua conquista, inédita para uma brasileira, foi relatada pelos principais periódicos brasileiros. Seu pai era o representante da Bristol Company no Brasil. Quando, em 1877, essa empresa faliu, ele não podia mais custear os estudos da filha em New York. Albino apelou aos amigos para conseguir a soma necessária para custear os estudos da filha. Conseguiu uma parte do dinheiro que não era suficiente para a empreitada. Por intermédio do Comendador Augusto César de Oliveira Roxo, o Imperador D. Pedro II ficou sabendo do fato, estipulou, por Decreto de janeiro de 1878, uma bolsa de 1.500$000 réis mensais para pagar a faculdade e 300$000 réis anuais para cobrir os gastos as suas despesas gerais.
Foi a primeira bolsa de estudos concedida pelo governo a uma mulher. Com a amiga Josefa Agueda Mercedes de Oliveira,[6] criou nos Estados Unidos o jornal A Mulher. Distribuído para as redações dos principais jornais brasileiros, defendia a emancipação da mulher.[7]
Formou-se em 1881, com a solenidade de formatura realizada no Hall Asosciation de New York, e seu diploma foi expedido em 29 de março do mesmo ano, conforme afirmou Ivone Costa, neta de Maria Augusta, em entrevista ao jornal O Globo, de abril de 1954. Foi oradora da turma tendo recebido uma medalha de ouro, pelo excelente desempenho durante o curso e pela sua brilhante tese sobre as Moléstias da Pele. Autorizada por D. Pedro II, ficou mais um ano nos Estados Unidos em estágio. Regressou ao Brasil, em outubro de 1882, quando recebeu diversas homenagens e foi recebida em audiência especial, em primeiro de novembro, pelo Imperador que lhe recomendou o atendimento de mulheres.
Conforme determinava a Constituição de 1832, prestou exames na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e o seu diploma foi revalidado, passando a exercer sua profissão durante muito tempo, dedicando-se prioritariamente à saúde de mulheres e crianças, atendendo ao compromisso estabelecido com D. Pedro II. Em 1884 conheceu o farmacêutico alagoano Antonio Costa Moraes, herói de guerra e proprietário da Farmácia Normal, com quem se casou e foi mãe de cinco filhos: Samuel, Matilde, Bárbara, Luciano e Antonio. Em uma das salas da farmácia instalou seu consultório onde também atendia gratuitamente aos mais necessitados.
Maria Augusta dividiu a existência entre eles e os pacientes, aos quais se dedicou com desvelo e carinho. Ficou viúva em 1908, o que a obrigou a reduzir o atendimento médico para se dedicar mais aos filhos, porém nunca abandonou completamente os estudos e o contato com clientes e estudiosos.
O seu sucesso e a repercussão da sua trajetória acadêmica foram muito importantes para que, em 19 de abril de 1879, o Império aprovasse a Reforma Leôncio de Magalhães que abriu as instituições de Ensino Superior às mulheres. A sua perseverança estimulou outras jovens a efetuarem suas matrículas em cursos superiores brasileiros. Faleceu em 18 de abril de 1946.
Quando o acesso das mulheres aos cursos superiores foi viabilizado, em 1879, várias províncias apresentaram candidatas ao curso de medicina. Esta profissão, até então exclusiva dos homens, estava agora disponível para as mulheres brasileiras.
No Sul, três gaúchas travam uma interessante disputa cultural: a obtenção do primeiro diploma de Doutora em Medicina em uma faculdade nacional. Ermelinda Lopes de Vasconcelos, Antonieta César dias e Rita Lobato ingressaram, em 1894, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Ermelinda formou-se em 26 de dezembro de 1888. Antonieta foi diplomada em dezembro de 1899.
Rita Lobato Velho Lopes, nascida em sete de junho de 1866 na cidade de São Pedro do Rio Grande – RS, filha de Francisco Lobato e Carolina Lobato. Algumas semanas depois, foi levada para a Estância de Santa Izabel, próxima a Pelotas, onde o pai era comerciante de charque. Seus pais mudaram-se para Pelotas, quando Rita tinha nove anos e onde ela frequentou várias escolas, sempre com grande destaque e sempre respeitada e elogiada por colegas e professores.
A jovem encontrava-se em Porto Alegre, em três de junho de 1883, estudando para os exames preparatórios, quando recebeu a notícia da morte da sua mãe que a consternou. Lembrou-se do que ela sempre lhe solicitara: Minha filha! Se fores médica algum dia, pratica sempre a caridade. Nunca esqueceu o pedido e, anos depois, ao clinicar, atendeu e auxiliou aos necessitados. A perda de Rita Carolina fortaleceu a decisão de ser médica. A família decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro. No dia 31 de março de 1884, sem perder tempo, pouco depois da chegada à cidade Rita inscreveu-se no curso de Medicina.[8]
Rita tinha receio sobre a recepção dos colegas, pois era recente o convívio com as jovens estudantes, mas surpreendeu-se com a amizade recebida. Concluiu o primeiro ano com distinção, obtendo nota plena que significava grau elevado nas disciplinas.
Mas, ao término do primeiro do ano, um incidente mudaria os planos. Promulgada a Reforma Felipe Franco de Sá, através do Decreto nº 9311, em 25 de outubro de 1884, alterando os Estatutos das Faculdades, muitos alunos rebelaram-se.
O protesto dos estudantes, que a consideravam rígida, criou problemas com alguns mestres. Entre os alunos encontrava-se Antonio Lobato, um dos irmãos de Rita que estudava na mesma faculdade. Impetuoso, antagonizou-se com os professores. Acreditando que os filhos seriam vítimas de alguma vingança ou represália na Faculdade, pela atitude de Antonio, o pai preferiu, por imprudência, mudar-se com a família.[9]
Em 14 de maio de 1885, chegaram a Salvador, e no mesmo mês e Rita, com a documentação exigida pelos novos estatutos, iniciou o segundo ano médico. Em 18 de maio começa a frequentar o curso, sendo a primeira mulher a estudar na Faculdade de Medicina da Bahia. Foi bem acolhida pelos professores e alunos. O Decreto nº 9311 possibilitava aos estudantes a antecipação dos exames, e Rita, ávida em formar-se para poder casar e ser a primeira mulher médica formada no Brasil estudava intensamente para alcançar o objetivo. A vida acadêmica era estafante, porém ela queria concluir o curso com brevidade. Entre 1885 e 1887 gozava apenas um descanso de fim de ano. Com sua determinação, realizou em pouco mais de três anos um curso que exige seis. Sempre foi assídua e dificilmente faltava às aulas.
Rita logo percebeu que bastava redobrar os esforços para ser a primeira Doutora em Medicina formada no Brasil. Assim, após 48 dias de aulas, requereu exames da maior parte das disciplinas da segunda série médica, sendo aprovada com nota plena. E assim continuou se dedicando de corpo e alma, sem descanso, ao estudo da Medicina. Em oito de agosto de 1887, requereu inscrição na sexta série, fazendo seus últimos exames em 24 de outubro com óbvia aprovação total.
Em 24 de novembro defendeu brilhantemente a tese Paralelo Entre os Métodos Preconizados na Operação Cesariana, considerada ousada para a época e surpreendeu professores, recebendo do corpo docente da tradicional faculdade baiana as maiores considerações e sendo aprovada com distinção. A formatura ocorreu em 10 de dezembro de 1887 no Salão Nobre da Faculdade.
Em 20 de dezembro do mesmo ano, Rita deixou Salvador e foi para Rio Pardo – RS. Durante um ano e meio atendeu em Porto Alegre a muitos chamados e realizando dezenas de partos. Casou-se em 18 de julho de 1889 na Estância Santa Vitória com Antonio Maria Amaro de Freitas, seu grande amor desde a infância. Em 26 de outubro de 1890, nasceu Isis, a filha única do casal. Viajaram para a Europa e na volta adquiriam, em 1891, a Estância de Capivari, onde passaram a residir. Viajou a Buenos Aires em março de 1910 para recreio e estudos. Chegou em abril e, durante cinco meses, visita alguns hospitais, assiste a cursos e conferências. No final de setembro retornou ao Rio Grande do Sul e voltou a clinicar atendendo a qualquer hora do dia ou da noite.
Em 1925, após 15 anos de atendimento em sua clínica, doou o material cirúrgico que possuía a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre e encerrou suas atividades.
Com o falecimento de seu companheiro, em 20 de setembro, de 1926, passou a dedicar-se ao movimento pioneiro das lideres feministas que lutavam pelos direitos políticos da mulher brasileira. Em 1934 filiou-se ao Partido Libertador e, em 21 de agosto de 1934, foi eleita primeira vereadora de Rio Pardo. Em 1937, o golpe do Governo Getúlio Vargas transformou o regime politico brasileiro em uma ditadura, interrompendo seu mandato. Mesmo assim continuou ativa na politica.
Em seis de janeiro de 1954 faleceu a primeira médica formada no Brasil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E SITIOGRÁFICAS
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ABREU, Janaina. Maria Augusta Generoso Estrella. Disponível em:
CAPUANO. Yvonne. Rita Lobato Velho Lopes. Disponível em:
GUIMARÃES, Mário V. Josefa Agueda: uma heroína de Tejucupapo. Disponível em:
SILVA, Alberto. A primeira médica do Brasil. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editora, 1954.
TRINDADE, Ana Paula Pires & TRINDADE, Diamantino Fernandes. Leituras Especiais sobre Ciências e Educação. São Paulo: Ícone Editora, 2009.
[1] No site da Fundação Nobel, www.nobel.se, pode-se obter informações sobre os laureados desde 1901.
[2] Atual Hobarth and William Smith Colleges.
[3] A primeira médica do Brasil.
[4] O jornal New York Herald, de 23 de abril de 1875, noticiou com destaque a chegada da jovem brasileira, louvando sua intrépida decisão.
[5] O New York Medical College and Hospital For Women foi criado por um ato especial, sob a responsabilidade da Universidade do Estado de New York em 14 de abril de 1863. The charter of this institution is still valid. Dr. Clemence S. Lozier was the pioneer who made it possible for women to study medicine in New York City.A Dra. Clemence S. Lozier foi a pioneira que tornou possível as mulheres estudarem medicina em New York City. Em 1918, os administradores, de acordo com o presidente do seu Conselho de Administração, fechou a faculdade e asThe women students were transferred to the New York Homeopathic Medical College and Fifth Avenue Hospital . alunas foram transferidas para a New York Medical College e Homeopática Fifth Avenue Hospital. Now, through the courtesy of the Dean, Dr. JAW Hetrick, the portrait of Dr. Clemence Sophia Lozier hangs in that College.
[6] Natural de Tejucupapo, distrito do Município de Goiana, Pernambuco. Filha do advogado Romualdo Alves de Oliveira. Recebeu uma bolsa de estudos da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco para estudar nos Estados Unidos (nota do autor).
[7] Janaina Abreu. Pioneira só pode estudar em New York.
[8] Yvonne Capuano. Rita Lobato Velho Lopes.
[9] Yvonne Capuano. Rita Lobato Velho Lopes.
terça-feira, 8 de junho de 2010
Os sanitaristas brasileiros
Diamantino Fernandes Trindade
Lais dos Santos Pinto Trindade
INTRODUÇÃO
Mestre João era astrólogo e físico na expedição de Pedro Álvares Cabral e foi o primeiro europeu a exercer funções de médico no Brasil. Em sua carta, datada de primeiro de março de 1500, enviada ao Rei D.Manuel, fala dos bons ares e do clima ameno da nova terra, bem como a ausência de várias doenças comuns na Europa. Poucas enfermidades acometiam os índios e, quando isso ocorria, eram tratadas pelos pajés que associavam “práticas mágicas” com o uso de ervas nativas com propriedades curadoras.
Os europeus trouxeram consigo uma trágica herança para os nativos da terra: doenças aqui desconhecidas como a varíola e o sarampo que mataram milhares deles. Vieram de lá também, a tuberculose, a lepra, doenças venéreas e muitas outras. Com os escravos chegaram a febre amarela e diversas verminoses.
Essas doenças adaptaram-se e tornaram-se endêmicas ou epidêmicas. A nova terra, antes sadia, tornou-se, segundo o professor Miguel da Silva Pereira, um “imenso hospital” nos albores do século XIX. Como não eram conhecidas as etiologias tratava-se apenas os sintomas. Contribuiu significativamente para esse estado de coisas, a vinda da Família Real, com mais de quinze mil pessoas, que ajudou a proliferar tais doenças.
O saneamento era quase inexistente em função do descaso das autoridades públicas com o tratamento de esgotos.A distribuição de água potável se dava em chafarizes de onde os escravos a transportavam para as residências. O processo de construção de aquedutos era muito lento. O da Carioca, no Rio de Janeiro, demorou cerca de 150 anos para ficar pronto. As condições dos esgotos eram deploráveis. Conforme Katinsky (1994): os dejetos eram deixados em grandes barris (tigres) e um escravo, à noite, de preferência, despejava-o no ponto mais próximo do rio, ou eram acumulados em “casinhas”, sobre um buraco no terreno dos fundos das casas (fossas negras).
No verão a situação tornava-se ainda pior e, no Rio de Janeiro, os escravos tinham a desagradável tarefa de levar os dejetos das residências até as praias. Recebiam então a denominação de “tigres” talvez pela cor tigrada com que os dejetos fecais sujavam a sua pele. Como havia grande facilidade de recrutar “tigres” a construção de rede de esgotos foi protelada por muito tempo.
Na segunda metade do século XIX, em decorrência dos estudos feitos na área da saúde sobre as relações entre os microorganismos presentes na água potável, hábitos higiênicos, serviços de tratamento de esgotos e a proliferação de doenças, alguns médicos e engenheiros iniciaram algumas ações no sentido de fornecer melhores condições de vida à população. Só então as redes de esgoto foram construídas.
Uma grande contribuição foi dada por Louis Pasteur, responsável por descobertas que possibilitaram o desenvolvimento de soros e vacinas, além da demonstração experimental da teoria dos micróbios causadores de doenças que originou um interessante processo social denominado de “revolução pasteuriana” modificando substancialmente as práticas científicas, os hábitos cotidianos e a medicina a partir do final do século XIX.
D.Pedro II mantinha estreitas relações com Pasteur e teve o seu primeiro contato com o cientista numa das sessões da Academia de Ciências da França. Em 1873 visitou-o em seu laboratório e expôs-lhe o problema do surto de febre amarela em algumas cidades brasileiras. A troca de correspondências entre eles tornou-se rotineira e Pasteur colaborou para o desenvolvimento da ciência brasileira enviando vários trabalhos de pesquisa dos seus laboratórios e recebendo dez jovens médicos brasileiros para participarem de cursos no Instituto Pasteur em Paris.
Iniciou-se assim, a fase científica da medicina brasileira. Em 1892, o governo do Estado de São Paulo criou o Serviço Sanitário responsável pela instalação do Instituto Vacinogênico (1892), do Instituto Bacteriológico (1893) – onde começou a pesquisa microbiológica no Brasil – e do Instituto Butantan (1899). O Instituto Butantan e o Instituto Soroterápico Federal em Manguinhos, no Rio de Janeiro, foram criados com a finalidade de produzir soros e vacinas para combater a peste bubônica, cuja primeira manifestação foi em 1899. Anteriormente (1888) fora criado o Instituto Pasteur, no Rio de Janeiro, com o intuito de produzir uma vacina para o combate da hidrofobia. O Instituto Pasteur de São Paulo foi criado em 1903.
Alguns médicos sanitaristas obtiveram destaque no controle de epidemias no Brasil. Em 1893, Adolpho Lutz passou a dirigir o Instituto Bacteriológico, iniciando em São Paulo a pesquisa médica. Juntamente com Vital Brasil trabalhou no controle da manifestação de peste bubônica em Santos. O surto de febre amarela na região de Campinas foi combatido pelo diretor do Serviço Sanitário, Emilio Ribas. O médico e sanitarista Oswaldo Cruz, de Manguinhos, foi convocado pelo Governo Federal para combater epidemias que matavam milhares de pessoas na região, como a febre amarela, a varíola e a peste bubônica. Carlos Chagas teve um papel importante na história da investigação médica com a descoberta do parasita e do inseto transmissor da enfermidade que ficou conhecida como “doença de Chagas”. Vejamos então um pouco do trabalho destes trabalhadores incansáveis pela saúde do povo brasileiro.
ADOLPHO LUTZ
O médico, sanitarista e pesquisador Adolpho Lutz nasceu em 18 de dezembro de 1855 no Rio de Janeiro. Aos dois anos de idade foi levado para a Suíça, terra natal de seus pais. Formou-se em Medicina, na Universidade de Berna, em 1880. Em 1881 retornou ao Brasil instalando seu consultório na cidade de Limeira, interior de São Paulo. Ali atendeu a população carente entre 1881 e 1866. Ia freqüentemente à Europa para atualizar-se em centros científicos mais avançados como Paris, Viena e Londres, trazendo este conhecimento para o Brasil. Foi para Hamburgo, na Alemanha, onde realizou pesquisas sobre a causa da lepra (hanseníase) com o professor Unna. Esta doença matou uma parte significativa da população do Hawai. Lutz, prontamente, viajou para lá, instalando-se em Honolulu no ano de 1899. Assumiu o cargo de diretor do hospital de Kalihi, na ilha Molocai. Após árduo trabalho contribuiu significativamente para a erradicação da doença. Retornou ao Brasil em 1892, desta vez fixando-se em São Paulo.
Muitas doenças assolavam a cidade, como a varíola, a febre tífica, a febre tifóide, o cólera, a malária e a tuberculose. Em 1893 uma epidemia de cólera, doença pouco conhecida na época, mobilizou os pesquisadores e técnicos do Instituto Bacteriológico. Adolpho Lutz, já como diretor desse instituto, utilizou um método eficiente para a época, no sentido de diagnosticar a doença. Alguns médicos, mais conservadores, contestavam o diagnóstico do cólera pelos os sintomas (grave desinteria). Adolpho enviou então, para algumas clínicas européias, amostras de fezes de várias pessoas contaminadas e os resultados confirmaram o seu diagnóstico. Pesquisou e demonstrou também a presença em São Paulo da desinteria amebiana, da escarlatina e do mosquito transmissor da malária.
Outro marco importante de sua pesquisa foi a identificação do mosquito Aedes aegypti como veículo do vírus causador da febre amarela. Em 1902, juntamente com Emilio Ribas serviu de cobaia numa arriscada experiência que viria a comprovar o mecanismo da transmissão dessa doença. Adotou então, algumas medidas para erradicá-lo como o uso de vapor de enxofre e pó de piretro, além de exterminar as larvas com o uso de querosene e essência de terebentina nas águas paradas.
Em 1908 deixou o Instituto Bacteriológico e aceitou o convite de Oswaldo Cruz para trabalhar no Instituto Manguinhos onde ficou até a sua morte, em 6 de outubro de 1940. A partir de então o Instituto Bacteriológico recebeu o nome de Instituto Adolpho Lutz em homenagem a este brilhante cientista brasileiro.
VITAL BRAZIL
O célebre médico brasileiro nasceu em 28 de abril de 1865, na cidade mineira de Campanha, no dia de São Vital. Recebeu então o nome de Vital Brazil Mineiro de Campanha. Ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro aos 21 anos. Com poucos recursos financeiros, fazia plantões como escrivão nas delegacias de polícia, para custear seus estudos. Graduou-se em 1891. Depois de formado participou do combate a epidemias como cólera, varíola e febre amarela no interior de são Paulo.
Em 1896 foi para a cidade paulista de Botucatu. Ali constatou um significativo aumento dos acidentes com cobras, decorrentes dos desmatamentos. Passou então a se dedicar à pesquisa ofídica, montando, em 1899, um laboratório na fazenda Butantan, em São Paulo, que depois se transformaria no Instituto Butantan. Na sua administração, entre 1901 e 1919, este instituto tornou-se conhecido no mundo inteiro pela produção de soros antiofídicos e pelos seus serpentários. Ainda em 1899, surgiu no porto de Santos, uma gravíssima epidemia que se propagou até o Rio de Janeiro e a outras cidades brasileiras. A suspeita recaiu sobre a febre amarela. Sob a orientação de Adolpho Lutz, conseguiu culturas positivas do microorganismo da peste. Oswaldo Cruz prosseguiu nas pesquisas de Vital, que contraíra a doença em caráter benigno, e constatou que era a peste bubônica.
Passou depois a estudar os trabalhos do médico francês Albert Calmette que havia produzido um antídoto para o veneno das cobras najas. Vital aprofundou estas pesquisas e desenvolveu o soro antiofídico para as cascavéis e jararacas, as espécies que mais causavam mortes no Brasil. Com esse soro as mortes pelas picadas destas cobras reduziram-se em 50 por cento.
Em 1916, numa conferência nos Estados Unidos, apresentou os trabalhos do Instituto Butantan. Suas pesquisas tiveram pouca repercussão, porque os americanos consideravam baixo o risco de picadas entre os trabalhadores rurais já que estes trabalhavam calçados. Enquanto aguardava o navio que o traria de volta ao Brasil, foi chamado às pressas para atender um funcionário do zoológico do Bronx que havia sido picado por uma cobra e corria risco de morte. Vital utilizou algumas ampolas do soro antiofídico que trouxera do Brasil e aplicou no paciente. Depois de doze horas, o funcionário do zoológico já estava fora de perigo. O fato tornou-se manchete no jornal The New York Times e teve repercussão mundial.
Depois de 20 anos de incansável trabalho no Insituto Butantan, mudou-se para Niterói onde fundou o Insituto Vital Brazil. Morou o resto da vida nessa cidade, onde faleceu no dia 8 de maio de 1950.
EMILIO RIBAS
Emilio Marcondes Ribas nasceu no dia 11 de abril de 1862, na cidade de Pindamonhangaba no Estado de São Paulo. Desde pequeno sonhava em ser médico. O sonho se concretizou em 1887, quando se formou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Logo após, retornou ao interior de São Paulo para exercer a sua profissão. Tinha fortes ideologias políticas e fundou um clube republicano para fazer frente ao Império decadente. Foi nomeado, pelo governo de São Paulo, inspetor sanitário e participou no combate a várias epidemias que assolavam algumas cidades paulistas.
Nessa função participou da higienização de Jaú e Campinas, orientando a canalização de córregos e a remoção do lixo das ruas. O sucesso das suas ações conduziram-no à direção do Serviço Sanitário em 1895, cargo que ocupou por quase 20 anos. Combateu o surto de febre amarela, exterminando seis mil viveiros de mosquitos Aedes aegypti. Em pouco tempo, a mortalidade causada pela febre amarela foi reduzida a apenas dois casos no Estado de São Paulo. Foi por sua iniciativa que o governo paulista adquiriu a fazenda Butantan, onde se instalou o Instituto com o mesmo nome.
Outro problema grave de saúde pública que mereceu a atenção de Emilio Ribas foi a lepra (hanseníase). Em 1913 foi comissionado pelo governo de são Paulo para estudar a questão dessa doença. Dedicou-se intensamente às melhorias das condições de tratamento dos leprosos. Em várias publicações orientou cientificamente, de acordo com as mais modernas aquisições, as diretrizes para a solução da doença. Considerava uma falta de humanidade o isolamento dos portadores por isso, construiu um asilo nas proximidades da cidade de São Paulo, que visitava três vezes por semana.
Durante a sua administração foram completamente debeladas as periódicas epidemias de varíola no Estado de São Paulo, graças à disseminação interna da vacina. Estudou e pesquisou intensamente a forma epidêmica para-variólica conhecida popularmente como alastrim, apresentando os resultados em vários centros científicos, onde foram bem aceitos.
Todos os assuntos sanitários eram abordados por Emilio Ribas. Criou frentes de combate à tuberculose, difteria, paludismo, tracoma e outras doenças.Além do Instituto Butantan, fundou também a Seção de Proteção à Primeira Infância, a Inspetoria Sanitária Escolar, o Serviço de Profilaxia e Tratamento do Tracoma. Reorganizou o Serviço Sanitário, o Desinfectório Central, o Hospital de Isolamento, o Laboratório de Analises Químicas e Bromatológicas e o Laboratório Farmacêutico.
Ribas estudou a febre amarela em Cuba e mostrou aos médicos brasileiros que em nosso país a doença era combatida de forma errada. Em 1902 fez uma investida pioneira e histórica, isolando-se numa sala, juntamente com Adolpho Lutz e outros voluntários, com um mosquito transmissor da febre amarela (Aedes aegypti) que havia picado um doente. Foram contaminados e internados para tratamento. Simultaneamente, outros voluntários ficaram dez dias dormindo com camisas sujas de vômito e urina dos doentes, saindo ilesos do experimento. Ribas comprovou, então, que não havia contágio direto, sendo inútil a manutenção dos doentes de forma isolada no Hospital de Isolamento. Nesse hospital que, em 1932, recebeu o nome de Hospital Emilio Ribas e hoje é o mais importante instituto de infectologia da América Latina, o ilustre filho de Pindamonhangaba morou durante 30 anos, tendo falecido no dia 19 de fevereiro de 1925.
CARLOS CHAGAS
Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas nasceu na cidade mineira de Oliveira em 9 de julho de 1878. Aos 16 anos ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Formou-se em 1903. Em 1905 participou de uma bem sucedida campanha de combate e erradicação da malária no interior do Estado de São Paulo. Sua ação eficaz, que tinha por base a desinfecção familiar, tornou-o conhecido como autoridade científica em todo mundo. Em 1906 passou a integrar a equipe do Instituto Oswaldo Cruz para mais tarde assumir o cargo de diretor de Saúde Pública.
Chagas viajava constantemente pelo interior do Brasil para trabalhar no combate a epidemias. Montou seu laboratório num vagão de trem, vizinho ao seu quarto de dormir. Fazia muitas visitas familiares para desinfecção e, numa dessas visitas a um casebre na cidade mineira de Lassance, notou que nas paredes existiam vários espécimes do inseto chamado, popularmente, de barbeiro. Recolheu alguns deles e os levou para estudos em seu laboratório. Nessa pesquisa conseguiu identificar o parasita do barbeiro que ele denominou de Trypanossoma cruzi, em homenagem a Oswaldo Cruz. Descobriu também a existência desse inseto em animais domésticos e, informado de que vários moradores do local padeciam de doenças estranhas, dedicou-se a estudar a relação entre essas doenças e o parasita. A sua ampla pesquisa possibilitou, além da descoberta do parasita, determinar a sua anatomia patológica, a epidemiologia, as formas clínicas, os meios de transmissão, a profilaxia e a sintomatologia da doença. Em 1909, anunciou a descoberta do parasita no sangue de uma menina de três anos chamada Berenice, que ele curou e só morreu aos 82 anos. A repercussão da sua pesquisa foi tão grande que, o mal ficou conhecido em todo mundo como doença de Chagas. Foi indicado ao Prêmio Nobel em 1913, 1920 e 1921.
Segundo Tiner (2004), Chagas participou efetivamente no levantamento das condições sanitárias dos habitantes da Amazônia, liderou a campanha contra a epidemia de gripe espanhola no Rio de Janeiro e publicou trabalhos de grande valor científico. Em 1912, recebeu o prêmio Schaudinn, conferido pelo Instituto de Doenças Tropicais de Hamburgo, na Alemanha, pelos seus estudos em protozoologia e microbiologia. Após a morte de Oswaldo Cruz, em1917, foi nomeado diretor do Instituto Oswaldo Cruz. A partir 1920, passou a exercer o cargo de diretor do Departamento de Saúde Pública. Em 1921 tornou-se o primeiro brasileiro a receber o título de doutor Honoris Causa pela Universidade de Harvard. Em 1925, recebeu Albert Einstein quando da sua visita ao Instituto de Manguinhos.
Faltou ao trabalho, no Instituto Oswaldo Cruz, apenas no dia de sua morte em 9 de novembro de 1934. Carlos Chagas Filho declarou à Revista Isto É que poucos dias antes de sua morte, demonstrou manifestar os sintomas da doença que havia descoberto. “Ele sabia que estava contaminado e escondeu”.
OSWALDO CRUZ
Oswaldo Gonçalves Cruz nasceu em São Luis do Paraitinga, no interior do Estado de São Paulo, no dia 5 de agosto de 1872. Ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro aos quinze anos e formou-se em 1892. Em 1896 foi para Paris e se especializou em Bacteriologia no famoso Instituto Pasteur, onde deixou um grande número de admiradores pela sua inteligência e dedicação aos estudos. Especializou-se também em urologia, pois sabia que as doenças venéreas eram um problema grave, principalmente a gonorréia, que contaminava muitos brasileiros.
A peste bubônica assolava o Rio de Janeiro e o diretor do recém criado Instituto Soroterápico de Manguinhos, Barão de Pedro Afonso, solicitou à direção do Instituto Pasteur que enviassem um especialista para auxiliar no combate à epidemia. A indicação recaiu sobre Oswaldo Cruz, que se tornou diretor-técnico em 1900, e diretor geral em 1902. Sob a supervisão de Oswaldo, o Instituto Soroterápico preparou os soros e vacinas necessários para o combate à doença. Sob sua direção o Instituto de Manguinhos passou a exercer atividades de pesquisa e formação, além da produção de soros. Conforme Santos Filho (1979), Oswaldo Cruz construiu para sede do instituto um verdadeiro palácio em estilo mourisco, contratou auxiliares e ensinou-lhes a investigação científica ordenada, enviou-os à Europa para especialização, orientou-os nas pesquisas, criou um curso de Medicina Experimental e fundou a revista intitulada Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (1909). O Instituto tomara seu nome e foi por ele dirigido até a sua morte em 1917. O pesquisador da Fiocruz, Paulo Gadelha, declarou a revista Isto É que ele queria construir um Templo da Ciência, um símbolo. Por isso tanto luxo e ornamentos.
Aos candidatos às vagas de pesquisador no Instituto Manguinhos fazia a seguinte pergunta: o que o senhor sabe sobre bacteriologia? Se a resposta fosse “muita coisa” ou “tudo”, o candidato era imediatamente reprovado. Se dissesse “nada, mas quero aprender”, era imediatamente aceito. Quando assumiu a direção do Instituto tinha a intenção de preparar novos pesquisadores, ensinando o que havia aprendido na Europa.
Em 1904 o Rio de Janeiro, então com cerca de 800 mil habitantes, era uma cidade perigosa em função do grande número de doenças como tuberculose, febre amarela, peste bubônica, varíola, tifo, cólera e outras enfermidades contagiosas. A capital da República era uma vergonha nacional. O presidente Rodrigues Alves resolveu agir para acabar com elas, convocando para isso Oswaldo Cruz. Suas políticas de saneamento mexeram com a vida dos cariocas, principalmente dos pobres. Em outubro de 1904, entrou em vigor a Lei da Vacina Obrigatória para conter o surto de varíola que dizimava milhares de pessoas, o que gerou petições contrárias assinadas por cerca de quinze mil pessoas. Oswaldo Cruz propôs uma arrojada regulamentação que exigia comprovantes de vacinação para matrículas em escolas, empregos, viagens, hospedagens e casamento. Além disso, os agentes sanitários invadiam as casas e cortiços para eliminar focos do mosquito Aedes aegypti, transmissor da febre amarela e para limpar caixas d’água e calhas. A polícia sanitária multava donos de imóveis insalubres. Os doentes deveriam ficar isolados em suas casas.
Todas estas ações geraram muitos protestos da população e da imprensa, em parte pela falta de informação, e estabeleceu-se a chamada “Revolta da Vacina” com muitas greves e tiroteios. O governo levou seis dias para conter o motim, após o que suspendeu a obrigatoriedade da vacina. Em 1908, uma grande epidemia de varíola acabou por levar a população em busca de ajuda aos postos de vacinação e atestando a validade dos métodos de Oswaldo Cruz. De acordo com Tiner (2004), um ano antes fora declarada a erradicação da febre amarela. Ainda em 1907, ele recebeu a medalha de ouro no XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia de Berlim.
Em 1913, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e, em 1916, assumiu o cargo de prefeito da cidade de Petrópolis, onde morava desde 1915. Faleceu, aos 54 anos, em 11 de fevereiro de 1917.
Estes cinco brilhantes médicos tinham uma íntima relação de trabalho e pesquisa. Nunca tiveram a preocupação de conquistar cargos a qualquer preço, de publicar centenas de artigos em revistas internacionais. Eram simples e dedicaram suas vidas à saúde pública e ao povo. Por isso foram grandes homens e grandes cientistas e permanecerão sempre vivos no coração da humanidade.
BIBLIOGRAFIA E SITIOGRAFIA
ALENCASTRO, Luiz Felipe (org.). História da Vida Privada no Brasil. Vol.2. São Paulo: Companhia das Letras, 1977.
CARVALHO, José Murilo. Abaixo a vacina! In: Nova História, n.13. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2004.
KATINSKY, Julio Roberto. Sistemas Construtivos Coloniais. In: VARGAS, Milton. História da Técnica e da Tecnologia no Brasil. São Paulo: Unesp/CEETEPS, 1994.
MOTOYAMA, Shozo (org.). Prelúdio para uma história: Ciência e Tecnologia no Brasil. São Paulo: Edusp/FAPESP, 2004.
RAEDERS, Georges. Dom Pedro II e os sábios franceses. Rio de Janeiro: Atlântica, 1944.
RIBAS, Emilio. Archivos de Hygiene e Saúde Pública. Vol.1, n.1, p.7-12. São Paulo: 1936.
REIS, João José. O cotidianoda morte no Brasil oitocentista. In: ALENCASTRO, Luiz Felipe (org.). História da Vida Privada no Brasil. Vol.2. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
SANTOS FILHO, Lycurgo de Castro. A Medicina no Brasil. In: FERRI, Mário Guimarães & MOTOYAMA, Shozo. História das Ciências no Brasil. São Paulo: EPU/Edusp, 1979.
TINER, John Hudson. 100 Cientistas que mudaram a história do mundo. Rio de Janeiro: Prestígio Editorial, 2004.
http://ctjjovem.mct.gov.br/index.php?action=content/view&cod_objeto=1990:
www. terra.com.br/istoé/biblioteca/brasileiro/ciência/ciencia
sábado, 6 de junho de 2009
O QUE É INTERDISCIPLINARIDADE?
LEITURAS ESPECIAIS SOBRE CIÊNCIAS E EDUCAÇÃO
O livro dividido em cinco partes aborda:
Autoria da Escrita na Visão Psicopedagógica
Ana Paula Pires Trindade faz uma análise do desenvolvimento da autoria da escrita e o seu papel na construção do sujeito epistêmico tanto no âmbito social quanto no escolar.
Interfaces da Ciência: Mito, Religião, Poder e Educação
Diamantino Fernandes Trindade escreve sobre algumas interfaces que a Ciência estabelece com o mito, a religião, o poder e Educação.
Conquistas Femininas: Avanços e Retrocessos
Ana Paula e Diamantino escrevem sobre as conquistas das mulheres em diversos setores, bem como a importância do dinamismo matriarcal, em contraponto ao dinamismo patriarcal que rege a sociedade atual.
A Didática do Ensino da Matemática na Educação de Jovens e Adultos
Elisabete Teresinha Guerato discorre sobre a Didática do Ensino da Matemática na Educação de Jovens e Adultos.
Dos Ideogramas Alquímicos ao Alfabeto de Lavoisier: uma análise da influência da linguagem na evolução da Química e das Ciências
Marcelo Marcílio Silva traz preciosa colaboração com o estudo analítico entre os ideogramas alquímicos e a Nomenclatura Química proposta por Lavoisier que, em 1787, defendeu na Academia das Ciências, durante a leitura pública de sua Memória, a necessidade de reformar e aperfeiçoar a nomenclatura química.
Estas leituras especiais trarão, sem sombra de dúvidas, uma nova visão sobre alguns temas discutidos na atualidade nos campos da Educação e da Ciência.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
O INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA - SP E O ENSINO DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA
Os problemas encontrados no ensino de ciências, com professores e alunos desmotivados, tem sido objeto de estudo das mais diversas linhas de pesquisa em Educação e alvo de freqüentes publicações em muitos países. Muitas são as estratégias defendidas para alterar este quadro e, entre elas, apontada como uma possibilidade para estimular o interesse por esta área do conhecimento, destaca-se a introdução da História da Ciência como um recurso necessário para o aprendizado das diversas ciências.
Isso seria, sem dúvida, um ponto de partida para uma modificação significativa nos conteúdos, especialmente ao levantar discussões sobre diferentes modelos de conhecimento, o que também poderia ajudar a repensar tanto o ensino como a educação científica.
Conforme Trindade (2009):
Visando esse processo, os Parâmetros Curriculares Nacionais, ainda que pontualmente, assinalam a importância da História da Ciência como fonte para a construção de uma concepção não-neutra da Ciência a partir das séries iniciais do ensino fundamental Todavia, a construção da interface entre a história da ciência e o ensino não se dá com muita facilidade, por dois motivos: há poucos historiadores da ciência e, freqüentemente, os professores universitários não costumam dar importância merecida ao estudo dos históricos que compuseram e estruturaram os conceitos e as teorias de sua disciplina. Assim, o processo de formação fica, maior parte dos casos, limitada aos aspectos teóricos e práticos necessários à prática profissional do cientista, mas não do educador.
Ao desconsiderar os estudos sobre processos de construção das ciências em suas dimensões históricas, sociais e culturais, os professores deixam de se capacitar para elaborar uma crítica adequada ao saber científico, ao seu próprio saber e ao saber que transmitem. Em outras palavras, acabam apenas retransmitindo resultados da pesquisa científica, o que difere do ensino científico. Por outro lado, aqueles que continuam sendo formados sob tal perspectiva, acabam apenas repetindo um conhecimento que se torna descontextualizado, fragmentado e dogmático. Tal postura leva a endossar a idéia de que a ciência é atemporal, desvinculada das necessidades humanas, que progride de modo linear e cumulativo, existindo acima da moral e da ética, e neutra no que diz respeito às suas conseqüências. Além disso, traz consigo a imagem de que a ciência é um repositório de certezas e de verdades, fruto do trabalho de indivíduos abnegados que descobrem as verdades já inscritas na natureza, desvelando-as completamente por meio da observação e de medidas mais rigorosas.
Adotando uma nova visão, que reconheço como interdisciplinar, da área de Ciências da Natureza, percebi que a História da Ciência pode ser uma disciplina aglutinadora. A contextualização sociocultural e histórica da Ciência e tecnologia associa-se às Ciências Humanas e cria importantes interfaces com outras áreas do conhecimento. O caráter interdisciplinar da História da Ciência não aniquila o caráter necessariamente disciplinar do conhecimento científico, mas completa-o, estimulando a percepção entre os fenômenos, fundamental para grande parte das tecnologias e desenvolvimento de uma visão articulada do ser humano em seu meio natural, como construtor e transformador desse meio.
Em 1978, iniciei a minha carreira como professor universitário, lecionando Química Geral nas Faculdades Oswaldo Cruz. O ensino tecnicista estava em vigor; havia um ciclo básico para os alunos de Engenharia Química, Química Industrial, Licenciatura e Bacharelado em Química, Física e Matemática. Eram 17 turmas e o currículo era o mesmo para todas elas. Os alunos dessas turmas, vindos do segundo grau profissionalizante, eram produto da LDB 5.692/71. Ainda nesse ano passei a lecionar Química para os cursos de Licenciatura em Física, Matemática e Biologia na Universidade de Santo Amaro e Química Analítica para o curso de Licenciatura em Química na Universidade de Guarulhos. Senti que precisava, como já fazia no curso colegial, tornar minhas aulas mais interessantes. Procurava, desde aquela época, embora sem nenhuma sustentação teórica, pautar minhas aulas em um enfoque histórico. Percebi então que, ao situar as teorias de Química no contexto em que haviam sido produzidas, despertava maior interesse dos alunos.
Nesse momento, a História da Ciência servia apenas para chamar a atenção dos alunos. Em 1980, conheci o professor Márcio Pugliesi que lecionava a disciplina História e Desenvolvimento do Pensamento Científico, no curso de licenciatura em Química nas Faculdades Oswaldo Cruz, e esse contato ativou ainda mais o meu interesse pela História da Ciência.
As pesquisas sobre História da Ciência levaram-me à construção de um currículo paralelo em que pude perceber que o desenvolvimento histórico da Química, Física e Matemática mostrava que estas ciências não precisavam ser ensinadas de modo tão fragmentado, tradicional e cansativo. O fruto desses primeiros anos de pesquisa foi a publicação, em 1983, do livro Química Básica Teórica, em parceria com Márcio Pugliesi, obra na qual a articulação dos capítulos foi feita em função da visão histórica do desenvolvimento da Química.
A História da Ciência começou a se delinear como um espaço para a crítica do conhecimento científico, por meio da interdisciplinaridade, a partir da década de 1960. Constitui-se em um espaço estratégico do ponto de vista educacional, pois procura enfatizar a ética científica, respeitando a humanidade e a sua história e, desta forma, resgatar o homem no seu sentido superior. Alguns autores, como Alfonso-Goldfarb e Andery abordam esta questão. Durante os anos de 1990, houve um crescente interesse, na área educacional, pela História da Ciência e diversos trabalhos, como os de Chassot e Vanin , foram escritos sobre a sua importância na formação dos alunos do Ensino Médio. Entretanto, freqüentemente o seu conhecimento é construído enfocando alguns episódios descontextualizados nas disciplinas das chamadas Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnologias, quando tópicos de História da Ciência são introduzidos apenas como ilustração, configurando o que se convencionou chamar de “perfumaria”, uma espécie de pausa para respirar entre dois conteúdos e que realmente, estes sim, devem merecer a importância do professor e do aluno! Esta não é, seguramente, a História da Ciência que desejamos que faça parte da formação dos alunos de Ensino Médio do nosso país.
Apesar de ser fundamental que os professores dessas disciplinas introduzam, no cotidiano das suas salas de aula, tópicos de História da Ciência, freqüentemente são limitados a um caráter apenas ilustrativo, episódico, factual e cronológico. Por isso a existência de um espaço curricular próprio e específico para os conteúdos de História da Ciência possibilita que estes possam ser abordados e articulados de forma muito mais orgânica no processo ensino-aprendizagem-avaliação.
Quando a LDB destaca as diretrizes curriculares específicas do Ensino Médio, ela se preocupa em assinalar para um planejamento e desenvolvimento do currículo de forma orgânica, superando a organização por disciplinas estanques e revigorando a integração dos conhecimentos, num processo permanente de interdisciplinaridade. Essa proposta de organicidade está contida no Artigo 36:
... destacará a Educação tecnológica básica, a compreensão do significado de ciência, das letras e das artes; o processo histórico de transformação da sociedade e da cultura; a língua portuguesa como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e exercício da cidadania.
As diretrizes propostas nortearam a implantação do Ensino Médio no IFSP. Para os terceiros anos, estavam previstos blocos de disciplinas optativas, um dos quais foi chamado de Energia e Vida e ficou sob a responsabilidade da área de Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnologias. A disciplina História da Ciência foi escolhida como unidade de caráter curricular integrador. Enquadrou-se no Projeto Pedagógico da escola em seus três pontos basilares: História da Ciência como eixo temático, a interdisciplinaridade como método e também princípio filosófico-pedagógico norteador e a pedagogia crítico-social dos conteúdos como embasamento de caráter teórico.
Um antigo sonho ganhava vida. Finalmente, começava-se a perceber a importância desse estudo na formação do jovem. Seu eixo gerador – a compreensão dos conceitos científicos ao longo da história, vinculada ao desenvolvimento tecnológico e econômico da sociedade – procuraria relacionar os conteúdos estudados nas diversas disciplinas das Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnologias com os “conteúdos” necessários para a vida e talvez passar a compartilhar com os estudantes um conhecimento capaz de despertar o desejo, o amor pelo saber.
Em 2000 comecei a lecionar, junto com o Professor Ricardo Roberto Plaza Teixeira, essa disciplina. As dificuldades foram se revelando em função da inexistência de referenciais teóricos para a ação pedagógica. A idéia era inédita no Brasil, no que se refere ao Ensino Médio. O grande desafio tornou-se sair da posição de ensinar, para aprender junto com os alunos. A pesquisa compartilhada trouxe consigo uma visão mais abrangente dos processos de ensino-aprendizagem-avaliação das Ciências da Natureza e de suas regiões de fronteira, onde convivem também a História da Ciência, a Filosofia, a História e a própria Ciência cuja história se pretende estudar. Trindade diz que:
Regiões de fronteira são regiões interdisciplinares, regiões de encontros e transformações que se concretizam no comprometimento do professor com seu trabalho e se alimentam pelas experiências e vivências rituais de sua arte, anunciando possibilidades de vencer os limites impostos pelo conhecimento fragmentado, transformando-o em espaços criativos.
Diz ainda que:
O mundo é do tamanho do conhecimento que temos dele, portanto, de nós mesmos. Ao ampliar esse conhecimento, estendemos e estabelecemos nossas fronteiras, o mundo cresce, o sabor da busca se intensifica, o que confere à ação pedagógica um poder mágico: o de ir do presente ao passado, o de passear por lugares nunca vistos, o de alcançar e ultrapassar fronteiras transitando entre elas.
Nesse projeto de inclusão da disciplina História da Ciência no Ensino Médio no IFSP, os alunos acompanharam o desenvolvimento científico da humanidade desde os primórdios da civilização até os dias de hoje. Nessa grandiosa aventura da História, nos seus vários momentos, estudaram como os seres humanos se relacionam, em todos os tempos, com o conhecimento.
Com o passar do tempo esse projeto foi também desenvolvido pelo professor Ricardo Plaza nos primeiros anos do Ensino Médio.
Trabalhar com os alunos do Ensino Médio do IFSP nessa disciplina foi uma experiência bem-sucedida, um desafio vencido. Ficou claro que é possível trabalhar de forma interdisciplinar e contextualizada e que a História da Ciência é um dos instrumentos que possibilitam essa tarefa pedagógica. Tal experiência durou até 2007.
E o ensino da História da Ciência no Ensino Superior?
Desde a década de 1950, a História da Ciência está presente, como disciplina optativa, em vários cursos da Universidade de São Paulo, e na Unicamp, a partir da década de 1970. Com as novas Diretrizes Curriculares, alguns cursos de Formação de Professores em ciências passaram a incluir esta disciplina, como obrigatória, nas séries iniciais.
Que motivos levam uma Instituição de Ensino Superior a implantar a disciplina História da Ciência no currículo dos cursos de Licenciatura em ciências?
Para tentar responder esta questão, é importante fazer um breve histórico acerca da implantação e do desenvolvimento dessa disciplina em alguns cursos de ciências.
Desde a sua fundação, em 1934, sempre houve algum interesse pela História da Ciência na Universidade de São Paulo. Alguns cientistas estrangeiros convidados para constituírem os primeiros grupos de pesquisa na universidade cultivavam a História da Ciência, considerando-a importante tanto como fonte de inspiração para a pesquisa quanto instrumento pedagógico para o ensino universitário.
Não é de se estranhar então que vários pesquisadores brasileiros, formados por esses mestres estrangeiros, mostrassem sensibilidade por essa disciplina. Outros ainda a procuravam como um dos instrumentos para suprir as faltas e as deficiências de um ambiente universitário com pouca tradição de pesquisa. A USP não surgiu pelo amadurecimento de condições favoráveis à Ciência ou à tecnologia, mas da vontade política de determinados segmentos da elite paulistana.
Nas primeiras décadas após a fundação da USP, o Brasil continuou tendo principalmente uma economia agrário-exportadora, apesar da política de industrialização por substituição de importações. Assim, a falta de um amadurecimento técnico ou industrial não fornecia o substrato adequado para a criatividade científica ou para a inovação tecnológica. Desse modo, as referências vinham do estrangeiro. Em parte, isso podia ser suprido pela História da Ciência que, em tese, possuía condições para promover a compreensão do significado social da Ciência. Não foi por acaso que a primeira geração de cientistas da USP mostrou grande interesse pela História da Ciência.
Na década de 1950, tivemos alguma pesquisa na área de História da Ciência estimulada pelo sociólogo Fernando de Azevedo que concebeu o livro As ciências no Brasil, onde cada capítulo era dedicado ao desenvolvimento histórico das disciplinas científicas existentes no país. Vários profissionais de renome participaram desse trabalho, como Abraão de Morais, Viktor Leinz, Mário Guimarães Ferri, Heinrich Rheinboldt, entre outros.
Apesar desse interesse, cursos regulares de História da Ciência praticamente inexistiram nos primeiros anos da USP. Essa situação começou a mudar na década de 1960, quando teve início a expansão do ensino universitário no Brasil. Nessa época, o departamento de Física da USP criou a disciplina História das Ciências Físicas, sendo o primeiro curso regular a funcionar em todo o Brasil. O físico Plínio Sussekind da Rocha foi contratado especialmente para ministrar essa disciplina.
Na década de 1970, formou-se na USP o Núcleo de História da Ciência coordenado por Shozo Motoyama e que contava com Juinichi Osada, Maria Amélia Dantes, Carlos Henrique Liberalli, Simão Mathias e Geraldo Florshein. De acordo com as diretrizes da Reforma Universitária, implantada em todo Brasil, o Departamento de História ficou encarregado de ministrar as aulas de História da Ciência para toda Universidade. Ainda na década de 1970, foi criado o Instituto de Física Gleb Wathagin na Unicamp, que teve na figura de Roberto Andrade Martins um grande incentivador do ensino da História e Filosofia da Ciência.
No âmbito da pós-graduação, merece destaque o Centro Simão Mathias (CESIMA), ligado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência, da PUC-SP, que congrega graduandos, pós-graduandos e pesquisadores de diferentes áreas e instituições, tendo em vista a realização de estudos de interface centrados em História da Ciência. Desde sua criação, em 1994, vem organizando seminários, cursos de curta duração e outros importantes eventos. O CESIMA é considerado uma referência mundial no estudo e pesquisa de História da Ciência.
A disciplina História da Ciência foi e, em alguns casos, ainda é uma disciplina optativa nos cursos de ciências. Os cursos de Formação de Professores começaram a ganhar identidade própria há poucos anos, pois sempre foram vistos como meros apêndices dos bacharelados. Assim, sempre que a disciplina História da Ciência era oferecida, constituía-se em mais uma “perfumaria” para os alunos conseguirem créditos fáceis. O motivo desta depreciação é a maneira pela qual foi, e às vezes ainda é ensinada.
Muitas vezes a História da Ciência é concebida como uma coleção de curiosidades científicas e, outras tantas tal qual uma coleção de anedotas como um determinado grego (Arquimedes) correndo nu pelas ruas gritando “eureca”; um inglês (Newton) sonhando em um jardim enquanto as maçãs caíam sobre sua cabeça; Einstein gostava de usar roupas velhas e mostrar a língua; a mãe de Kepler era uma feiticeira. Quando não cai sobre tais extremos, a História da Ciência é ensinada como um mero relato sem relação com o que realmente ocorreu com o que motivava os cientistas e o que movia a sociedade a sustentá-los, relatos muitas vezes adaptados para que se compreenda com facilidade em vez de contar a real articulação de idéias e contradições, de frustrações e triunfos pelos quais passaram os cientistas. Este enfoque sobre o ensino da História da Ciência vem mudando gradativamente.
No IFSP a História da Ciência foi implantada pelo professor Ricardo Plaza no curso de Licenciatura em Física que lecionou a disciplina Ciência, História e Cultura até o final de 2005. A partir de então assumi esta disciplina. Quando se analisa a atual legislação brasileira para a formação de professores na área de ensino de Física, percebemos uma situação de falta de consenso ou de disputa pragmática sobre o ideal de profissionalização docente. De um lado, as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Física (Parecer CNE 1304/2001) apontam para a licenciatura como orientação final de curso de graduação de Física, caracterizando um físico-educador ou um bacharel que pode lecionar. Em tais Diretrizes, a identidade do professor de Física é consolidada no âmbito da graduação que ele obtém na área de conhecimento específico mais do que na licenciatura.
No plano de ensino para o espaço curricular Ciência, História e Cultura procuramos evidenciar que o entendimento da natureza histórica, social e cultural do conhecimento científico é, ao mesmo tempo, um objetivo e um dos maiores desafios da educação para a Ciência. Assim, esse espaço curricular aborda não apenas elementos da historiografia da Ciência, mas problematiza o seu papel no ensino e na divulgação científica. São estudados materiais didáticos, produção acadêmica e projetos de ensino que incorporam e propõem o ensino da Física articulado à dimensão cultural da Ciência e as relações múltiplas entre a implicação e a determinação social do conhecimento científico e seus produtos tecnológicos. São propostas atividades de estudo visando à incorporação da pesquisa em ensino das ciências à prática de sala de aula.
Com o tempo fomos percebendo que os professores em formação compreenderam que realmente existem possibilidades para deslocar a visão hermética e tradicional de ensinar ciências, presente nos manuais didáticos, para uma visão ampla e crítica na qual ela não aparece como algo pronto e acabado. Mais importante do que isso é a percepção de que a História da Ciência não deve ir para a sala de aula como complemento ou curiosidade e, sim, fazendo parte do contexto desse novo olhar do ensino-aprendizagem de ciências.
A partir de 2008 passei a lecionar a disciplina História e Filosofia da Ciência para os cursos de Licenciatura em Química e Licenciatura em Biologia do IFSP seguindo as mesmas diretrizes do curso de Licenciatura em Física.
As experiências bem sucedidas do ensino da História da Ciência transpuseram as fronteiras do IFSP e passaram a ser divulgadas de diversas maneiras. A primeira delas foi o curso História da Ciência: um instrumento interdisciplinar que ministrei em 2002 no SINPRO-SP e na UNICID em 2004. Em 2004 e 2005 ministrei a disciplina História da Ciência para os cursos de Licenciatura em Matemática, Física e Química do Instituto Superior de Educação Oswaldo Cruz.
Diversos artigos foram publicados em revistas:
Reflexões sobre uma experiência de inclusão da disciplina História da Ciência no Ensino Médio (Ricardo Roberto Plaza Teixeira e Diamantino Fernandes Trindade) na Revista Sinergia.
A História e a Fotografia a Serviço do Estado: D. Pedro II e a afirmação da Nação (Diamantino Fernandes Trindade, Lais dos Santos Pinto Trindade e Luiz Felipe S. P. Garcia) na Revista Sinergia.
Os pioneiros da Ciência Brasileira: Bartholomeu de Gusmão, José Bonifácio, Landell de Moura e D. Pedro II (Diamantino Fernandes Trindade e Lais dos Santos Pinto Trindade) na Revista Sinergia.
História da Ciência no Ensino Médio: uma pesquisa interdisciplinar (Diamantino Fernandes Trindade) na Revista CEAP de Educação.
As faces ocultas da Ciência segundo Pierre Thuillier em seu livro de Arquimedes a Einstein (Ricardo Roberto Plaza Teixeira e Fernando Barbosa Ferreira) na Revista Sinergia.
Uma análise do filme “O Nome da Rosa” sob a ótica da História da Ciência (Ricardo Plaza Teixeira) na Revista Transfazer – Estudos Interdisciplinares.
Análise das conclusões do livro A origem das espécies de Charles Darwin (Ricardo Plaza Teixeira) na Revista Científica da FAMEC.
Breve análise da obra “Os Sonâmbulos” e de sua importância para a História da Ciência (Ricardo Plaza Teixeira e Fernando Barbosa Ferreira) na Revista Sinergia.
O valor da Ciência de Poincaré, cem anos depois de sua publicação (Ricardo Roberto Plaza Teixeira e Alessandra Cristiane Matias) na Revista Sinergia.
Reflexões sobre a disciplina-projeto Ciência, História e Cultura – proposta para turmas do Ensino Médio do IFSP (Ricardo Roberto Plaza Teixeira e Fausto Henrique Gomes Nogueira) na Revista Sinergia.
Os caminhos da ciência brasileira: da Colônia até Santos Dumont (Diamantino Fernandes Trindade e Lais dos Santos Pintos Trindade) na Revista Sinergia.
Os caminhos da ciência brasileira: os sanitaristas (Diamantino Fernandes Trindade e Lais dos Santos Pintos Trindade) na Revista Sinergia.
Alberto Santos Dumont pelos céus de Paris (Diamantino Fernandes Trindade) no Jornal Nova Era Maçônica.
Química e Alquimia (Diamantino Fernandes Trindade e Lais dos Santos Pinto Trindade) na Revista Sinergia.
As telecomunicações no Brasil: de D. Pedro II até o Regime Militar (Diamantino Fernandes Trindade e Lais dos Santos Pinto Trindade) na Revista Sinergia.
A interface ciência e educação e o papel da História da Ciência para a compreensão do significado dos saberes escolares (Diamantino Fernandes Trindade) na Revista Iberoamericana de Educación.
A Ciência criando interfaces com o mito e a religião (Diamantino Fernandes Trindade) na Revista Sinergia.
A interface Ciência e Educação (Diamantino Fernandes Trindade) na Revista Planeta Educação).
Alguns livros também foram publicados abordando a experiência do ensino da História da Ciência no IFSP:
A História da História da Ciência (Diamantino Fernandes Trindade e Lais dos Santos Pinto Trindade) publicado pela Madras Editora. Neste livro é feita uma abordagem da construção histórica da Ciência desde a Grécia até o século XX.
O ponto de mutação no ensino das ciências (Diamantino Fernandes Trindade) publicado pela Madras Editora. Esta obra aborda a experiência do ensino da História da Ciência no Ensino Médio do IFSP.
Temas Especiais de Educação e Ciências (Diamantino Fernandes Trindade, Lais dos Santos Pinto Trindade, Ricardo Plaza Teixeira e Wania Tedeschi) publicado pela Madras Editora. Este livro contempla alguns capítulos dedicados à História da Ciência.
Os Caminhos da Ciência e os Caminhos da Educação: Ciência, História e Educação na Sala de Aula (Lais dos Santos Pinto Trindade e Diamantino Fernandes Trindade) publicado pela Madras Editora. A primeira parte desta obra aborda a História da Ciência no Brasil. Ricardo Plaza Teixeira contribuiu com um artigo.
Leituras Especiais de Ciências e Educação (Ana Paula Pires Trindade e Diamantino Fernandes Trindade) publicado pela Ícone Editora. Um dos capítulos deste livro aborda a interface da Ciência com a Educação por meio da História da Ciência.
Vários trabalhos foram apresentados em congressos, simpósios e seminários abordando ensino da História da Ciência:
Os botões de Napoleão: a História da Química e a Educação Científica (Diamantino Fernandes Trindade, Ricardo Plaza Teixeira e Wilmes Teixeira) apresentado na Jornada de História da Ciência e Ensino na PUC-SP.
História da Ciência: uma possibilidade interdisciplinar para o ensino de ciências no Ensino Médio (Diamantino Fernandes Trindade) apresentado no Seminário A Melhoria da Qualidade do Ensino Médio Público, no Instituto Unibanco. Este trabalho foi um dos três vencedores do Prêmio Instituto Unibanco 2007, categoria Formação de Professores.
História da Ciência: uma possibilidade para aprender ciências (Diamantino Fernandes Trindade) apresentado III Congresso Internacional Sobre Projetos em Educação.
Diferentes estratégias para a História da Ciência no Ensino Médio (Ricardo Plaza Teixeira) apresentado no II Congresso Luso-Brasileiro de História da Ciência e da Técnica.
A História da Física Moderna e o uso de novas tecnologias no ensino da Física (Ricardo Plaza Teixeira e Marcelo Marcilio Silva) apresentado na Jornada de História da Ciência e Ensino na PUC-SP.
História da Ciência no Ensino Médio: uma pesquisa interisciplinar (Diamantino Fernandes Trindade) apresentado no Seminário Internacional de Educação – Teorias e Políticas na Universidade Nove de Julho.
Reflexões sobre uma experiência de inclusão da disciplina História da Ciência no Ensino Médio (Ricardo Plaza Teixeira) apresentado no XIV Simpósio Nacional de Ensino de Física.
História da Ciência: um ponto de mutação no Ensino Médio (Diamantino Fernandes Trindade) apresentado no V Encontro Nacional de Pesquisa em Educação da Região Sudeste – ANPED.
A contribuição da História da Ciência no Ensino Médio para a formação de um leitor crítico (Ricardo Plaza Teixeira) apresentado no XIII Congresso de Leitura do Brasil.
A História da Matemática inserida em um projeto tendo como eixos temáticos Ciência, História e Cultura (Ricardo Plaza Teixeira) apresentado no VII Encontro Nacional de Educação Matemática.
Os pioneiros das telecomunicações no Brasil: de D. Pedro II até a televisão em cores (Diamantino Fernandes Trindade) apresentado no II Congresso Universitário de Telecomunicações na Universidade Cidade de São Paulo.
História da Ciência no Ensino Médio (Ricardo Plaza Teixeira e Diamantino Fernandes Trindade) apresentado na V Mostra de material de Divulgação Científica e Ensino de Ciências na Estação Ciência.
José Bonifácio de Andrada e Silva e a memória sobre os diamantes do Brasil (Diamantino Fernandes Trindade) apresentado no Seminário Centenário Simão Mathias: Documentos, métodos e identidade da História da Ciência na PUC-SP.
Toda esta experiência possibilitou o desenvolvimento das minhas pesquisas de mestrado e doutorado:
História da Ciência: um ponto de mutação no Ensino Médio – a formação interdisciplinar de um professor, dissertação de mestrado orientada da Professora Dra. Sylvia Helena da Silva Batista, Universidade Cidade de São Paulo, 2002.
O olhar deHórus: uma perspectiva interdisciplinar do ensino na disciplina História da Ciência, tese de doutorado orientada pela Professora Dra. Ivani Catarina Arantes Fazenda, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2007. O professor Ricardo Plaza Teixeira foi um dos componentes da banca examinadora.
O IFSP foi o pioneiro no ensino da História da Ciência para o Ensino Médio. A História da Ciência mostrou-se um importante instrumento pedagógico para modificar a visão de Ciência dos alunos e constitui-se como condição primordial para a formação holística de professores de ciências compromissados com novos caminhos da Educação. Os desafios estão sempre presentes para aqueles professores que optam por esses caminhos, pela ruptura com o velho paradigma. Vivenciar os novos paradigmas da Ciência e da Educação significa um constante desconstruir e construir para não fragmentar novamente o todo, para não romper a teia do conhecimento e da vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
TRINDADE, Diamantino Fernandes. O Ponto de Mutação no Ensino das Ciências. São Paulo: Madras, 2005.
________. O olhar de Hórus: uma perspectiva interdisciplinar do ensino na disciplina História da Ciência. Tese de Doutorado. São Paulo: PUC-SP, 2007.
TRINDADE, Lais dos Santos Pinto. A alquimia dos processos ensino-aprendizagem em Química: um itinerário interdisciplinar e transformação das matrizes pedagógicas. Dissertação de Mestrado. São Paulo: UNICID, 2004.
________. História da Ciência na construção do conceito de ciências. Mimeo, 2009.





